Antonio Correa de Lacerda
O Brasil vem conquistando avanços importantes em vários campos, principalmente no econômico-social, o que nos tem propiciado maior autonomia das políticas econômicas para enfrentar as adversidades do ambiente externo.
O sucesso tem-se traduzido num nível elevado de aprovação do governo, o que mostra que a sociedade reconhece os progressos. O governo da presidente Dilma Rousseff vem consolidando importantes conquistas, especialmente as viabilizadas nos últimos dois decênios. O controle da inflação, mais recentemente acompanhado de um maior crescimento do nível de atividade, vem se refletindo na melhora do emprego, com o auxílio das políticas sociais, o que tem gerado distribuição de renda e minimizado a nossa ainda elevada desigualdade.
No entanto, o principal risco que enfrentamos, ao contrário do passado recente, não advém dos fatores externos, mas de um fator interno, que é o risco da acomodação.
A conjugação de fatores econômicos, políticos, sociais, etc., tende a nos levar a um sentimento de acomodação geral e a não realizar as transformações necessárias. Aqui, há um claro conflito entre o conforto do presente e a sustentabilidade futura. Não se trata de escolhas excludentes entre si, mas de ações complementares. Com habilidade e competência, é plenamente possível preservar os ganhos correntes, porém sem comprometer o futuro.
A principal contradição em jogo é que nos tornamos um mercado relevante, a sexta maior economia mundial, pelo critério do Produto Interno Bruto (PIB), e alcançamos posições ainda mais relevantes no tocante a mercados específicos, como o automobilístico (4.º mundial) e outros. Porém, não estamos aproveitando a potencialidade desse imenso mercado de consumo para viabilizarmos a ampliação da produção doméstica, a geração de centros de pesquisa e desenvolvimento e tecnologia, o que nos propiciaria ter empregos e renda de melhor qualidade, além de sofisticação e maior sustentabilidade das contas externas.
Dadas as condições adversas de competitividade sistêmica, estamos perdendo substância em elos importantes da cadeia produtiva. A consequência é um aumento rápido das importações, que substituem a produção local. Trata-se de um processo silencioso e nem sempre perceptível de desindustrialização. Apesar do avanço de mais de 10% do PIB, nos últimos três anos, a produção industrial permaneceu estagnada no acumulado do período e o déficit comercial de produtos industrializados deve ultrapassar os US$ 100 bilhões este ano.
Parece uma grande contradição, pois acaba de ser anunciado que o Brasil recebeu um volume recorde de investimentos diretos estrangeiros no ano passado e se mantém entre aqueles países que mais são alvos das grandes empresas, em pesquisas recentes.
A questão é que nem sempre o investidor que vem de fora atende aos interesses de localização e inovação. Muitas vezes, apenas reproduz o padrão vigente de baixo conteúdo local. Parcela substancial do investimento externo é voltada para projetos associados à exploração de recursos naturais, que são finitos e agregam pouco valor.
É preciso avançar numa agenda que contemple questões mais abrangentes e de interesse geral. Trata-se de um equívoco, no caso do debate da desindustrialização, encarar o problema como algo setorial ou uma demanda corporativa. Não há antecedentes na história econômica mundial de países com as nossas características e que tenham alcançado níveis avançados de desenvolvimento sem o apoio de uma indústria competitiva.
A industrialização representou o grande salto no século passado e um fator preponderante que nos permitiu chegar aonde chegamos no panorama mundial. Falta-nos um novo impulso para criar a indústria do século 21, que preserve os segmentos nos quais já temos tecnologia e know how e outros, novos, que ainda não dominamos.
É isso o que deve nortear nossas ações, envolvendo as políticas públicas, o setor privado, a área acadêmica e os institutos de pesquisa num esforço conjunto e inovador.
É, também, o que deve nortear o nosso relacionamento externo no que se refere a acordos com os países e o nosso padrão de comércio. É, ainda, muito importante atentarmos para a característica do investimento que mais nos interessa, que é aquele que venha complementar as nossas cadeias produtivas, agregar valor e gerar novas competências.
Precisamos compensar o ônus da remuneração ao investimento externo, que no ano passado representou uma despesa de US$ 40 bilhões, com exportações e outras receitas que garantam o equilíbrio intertemporal do balanço de pagamentos. Para isso, temos de sair do conforto de os outros nos descobrirem e nos elegerem como suas prioridades para atender às estratégias e atrair o investimento que viabilize nossas prioridades e interesses.
Carecemos de um projeto mais amplo e ambicioso, que combine a expansão do mercado com o aumento do valor agregado local e das inovações: um grande salto de desenvolvimento, sob pena de abrirmos mão de garantir a sustentabilidade futura.
Texto publicado originalmente no Estadão.
3 de fevereiro de 2012 às 15:27
Muito bem colocado. Precisamos urgentemente que sejam mapeadas as áreas para este tipo de desenvolvimento tecnológico e que empreendedores criativos e laboriosos sejam convidados a apresentarem projetos, a serem financiados pelo BNDES e bancos públicos. Estes últimos se encarregariam dos projetos de menor monta. Se houver carência de projetos, o poder público tem que incentivar a formação de parcerias e arranjos produtivos.