Passado o primeiro trimestre, quando o foco dos olhares econômicos internos – os externos estão em outro lugar – se desviar da questão inflacionária e da retomada da expansão econômica, o Brasil terá de começar a enfrentar seriamente aquela que é, ao lado da taxa de juros – a pior armadilha para a economia brasileira: o câmbio.
O fim da conversibilidade do dólar em ouro, decretado por Richard Nixon há 40 anos, fez da própria moeda americana o padrão mais comum de avaliação do poder de compra de uma moeda.
As relações monetárias mundiais passaram a gravitar exclusivamente em torno dele, sem nenhum outro padrão onde nos referenciarmos, ao ponto de ter surgido o estapafúrdio “Índice BigMac” como arremedo de um bem universal que poderia posicionar o valor de cada moeda.
Não obstante o fato de não se poder ter um referencial universal para os meios monetários correntes de cada país, todos concordam com algumas verdades perceptíveis: a paridade do poder de compra da moeda brasileira está valorizada entre algo entre 15 e 40% em relação ao dólar, e só não mais porque a própria moeda americana, ela própria, desvalorizou-se.
Quem quiser observar este processo, olhe o gráfico da relação real/dólar desde o início do período FHC até janeiro deste anos. Mesmo com a recente alta, essencialmente, permanece uma forte sobrevalorização.
Não é uma tarefa fácil corrigir esta distorção com um regime de câmbio livre. E as emissões de dólar – porque é isso o que são, na prática – dos EUA com seus “quantitative easings” e a política de liquidez estimulada pelo Federal reserve – que hoje anunciou a permanência de juros reais negativos nos títulos públicos americanos contribuem para que a entrada de dólares no Brasil permaneça nos níveis imensos que atingiu ano passado, o que nem de longe ajuda a busca de um “alvo” mais racional para a cotação do dólar, possivelmente em torno de R$ 2.
Com isso e a crise europeia dando sinais de estagnação da economia – embora não de um mergulho profundo, até aqui – não há força para fazer com que haja um processo mais intenso de alta do dólar, que se fixou no patamar que aqui se antecipou em setembro do ano passado: em torno de R$ 1,75.
Não era premonição, apenas a observação de uma tendência que era bastante diversa do catastrofismo cambial que, naquele momento, se desenhava na mídia.
Os mecanismos tributários de controle cambial, tão detestados pelo mercado, são o único instrumento que possuem as autoridades monetárias para frear o movimento especulativo que ensaia voltar em relação ao real, com o ingresso de US$ 6,65 bilhões, valor superior à média mensal de 2011, ano recorde em matéria de entrada de capital estrangeiro no Brasil.
Por: Fernando Brito