Como dissemos no post anterior, não há quem possa alegar “surpresa” no mercado com a – mais que indicação – afirmação do Banco Central descerá à casa de um dígito.
E o boletim Focus, que será divulgado segunda-feira, com as estimativas de hoje, sexta, sobre inflação e juros, embora não vá trazer baixa muito expressiva na previsão inflacionária – o mercado vai “resistir” ainda por mais algum tempo em admitir que a taxa pode, inclusive, ficar abaixo de 5%, ajudado por um IPCA de janeiro que se situará ainda acima do 0,5% – o que seria o cenário ideal estabelecido pelo Governo – mas a expectativa sobre os juros públicos, que vinha estável em 10,5%, deve levar um “tombo” de quase um ponto.
Ou seja, índice-base sobre o qual os bancos calculam o custo dos empréstimos vai sofrer, de uma só vez, um impacto de magnitude poucas vezes experimentada nos últimos tempos.
O cenário de expansão do crédito, que já se comportou mais incisiva do que esperavam as próprias análises do BC, apontando um crescimento de 19% em 2011, mesmo com juros mais elevados, sem que isso comprometesse a regularidade dos pagamentos.
Aliás, este blog já advertia, em meio às matérias que proclamavam um aumento da inadimplência, que o movimento real seria o contrário, o que é confirmado não apenas pelos dados gerais dos bancos como, ainda, pela melhoria da qualidade do crédito medida pelo Serasa.
O gráfico publicado hoje pela The Economist, que a gente reproduz aí em cima, comparando as taxas de juros reais (descontada a inflação) dos países em desenvolvimento – nos desenvolvidos está negativa em todos – mostra que não há que temer que baixa nos nossos juros sirva de razão para fuga de capitais. Exceto a China, não há país com estabilidade político-econômica que ofereça taxas sequer a metade das nossas, e olhe lá.
O governo brasileiro sabe que será este ano a sua batalha decisiva contra os juros e que essa luta terá vários fronts: câmbio, inflação, arrecadação/superavit das receitas e crédito para investimentos ou consumo.
Os dois primeiros -embora sujeitos a imprevisibilidades – mostram-se relativamente serenos. Os dois últimos, sensíveis a medidas e ações governamentais, também são de mais lenta construção.
É por isso que ninguém deve se enganar com resultados relativamente modestos nos primeiros meses do ano. É de abril em diante que os reflexos da política anticíclica que está em curso começarão a mostrar seus resultados mais consistentes.
E é também aí que aquela barrinha azul do gráfico, que é uma cruz nas costas de nosso país, vai começar a encolher.
por: Fernando Brito