Não é nada casual que as análises econômicas no Brasil sejam tão vinculadas ao curto, ao curtíssimo prazo.
É natural que isso ocorra, num país que, por décadas, deixou de lado a ideia de ter um objetivo estratégico e passou a viver da administração dos ganhos e perdas do dia-a-dia econômico.
Tal como as pessoas que não têm um projeto de vida e se vinculam aos resultados imediatos de suas ações, o Brasil passou a ser visto como uma situação que deveria produzir benefícios imediatos com o mínimo de de privações.
O liberalismo econômico tupiniquim, potencializado pelo neoliberalismo político, é a negação de uma visão de futuro e de coerência, em nome dos resultados imediatos.
É algo como se poderia dizer, usando a poesia, como o “só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder” no lugar de ” Há uma luz no túnel/dos desesperados/Há um cais de porto/pra quem precisa chegar”.
Certo que não se faz futuro sem hoje, mas o hoje é fadado a passar depressa como o sol no céu.
Mas uma nação não pode se tornar, no tempo das vacas gortas, aquilo que Darcy Ribeiro descreveu como ” desarmada de qualquer espírito criativo, generosidade ou rebeldia, pois estará deserdada de qualquer generosidade ou ousadia até mesmo da ousadia de projetar e lutar por utopias”.
Muito mais do que números, índices e balanços, quem duvida que o país voltou a ter visão estatégica e do que isso pode lhe dar em mudança de qualidade ?
Mas será um erro, um erro imenso – maior ainda que cuidar da administração do imediato – fraquejar e ceder à absolutização do imediato, que é a essencia da lógica de mercado.
Como num relacionamento humano – e não é possível deixar de proclamar, sempre e sempre, que a economia é uma atividade humana – a vida nacional não se mede em balanços trimestrais.
Os jornais de amanhã virão pródigos nessa visão. Petrobras, Banco do Brasil, vendas do comércio, tudo é apresentado como decepcionante porque não foi tão bom quanto ontem, embora o ontem tenha sido esplendoroso e o hoje, apenas positivo.
Uma palavra sequer sobre os ontens decepcionantes e maus.
Quando a análise econômica começa a afirmar a insuficiência do que é bom, comparando-o ao ótimo, desconfie.
Abandonar o caminho certo pelos espinhos, em geral, é passar a andar no rumo errado.
Por: Fernando Brito
15 de fevereiro de 2012 às 7:13
Muito bem colocado. Este imediatismo se dá na rastro do sequestro de nossa memória histórica. E isto não é casual, mas uma forma de garantir o dominio sobre os que se alimentam deste imediatismo. Caso bem claro vemos em nossos jornalões e jornalecos. Eles cultivam a cultura do medo e do espanto, de forma que sintamos sempre inseguros e dependentes de suas gotas de informação. Quando o dólar sobe, eles berram: O dólar subiu! o dólar subiu! e ficamos atemorizados. Quando o dólar cai, eles berram: O dólar caiu!, o dólar caiu, e continuamos aterrorizados. Eles inocularam o virus do complexo de vira lata em nosso povo. Manter o povo culpado, para dominá-lo, esta é a estratégia. E não nos descuidemos, pois eles ainda estão encastelados em casamatas muito fortes, que ainda falta arrombarmos, para que o ar novo possa frutificar e permanecer.